Em busca de novas perspectivas para a imprensa sobre a cobertura da crise emergencial na saúde pública

O foco da cobertura jornalística deve estar na preservação da grande saúde, isto é, o equilíbrio entre o corpo, mente e a alma das pessoas

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Ericson Scorsim. Advogado e Consultor em Direito da Comunicação. Doutor em Direito da USP.

A mídia tem um papel fundamental na divulgação de informações sobre a crise emergencial do coronavírus no setor da saúde pública.

Quando atravessamos um nevoeiro na estrada não conseguimos ver muito à frente, então somos obrigados a desacelerar o carro, para evitarmos nos perder na pista. Em crises nacionais, partindo-se desta metáfora, a mídia pode nos ajudar a sair deste nevoeiro, a partir da apresentação da big picture, isto é, o quadro geral em que nós estamos inseridos, com a soluções possíveis recomendadas à proteção da grande saúde.

A missão da imprensa escrita e televisiva é orientar a população quanto aos novos hábitos de higiene em proteção à saúde, para evitar o contágio com o vírus, como também as informações educativas sobre as medidas preventivas sobre de distanciamento/isolamento social. O foco da cobertura jornalística deve estar na preservação da grande saúde, isto é, o equilíbrio entre o corpo, mente e a alma das pessoas. O foco de atenção deve contribuir para a autoproteção, para proteger a saúde corporal e mental dos cidadãos. Com a proteção ao sistema imunológico é mais fácil se proteger diante do vírus.  Por outro lado, o  stress é fator de queda do sistema imunológico. Então, o estado de saúde depende de um sistema imunológico eficiente, capaz de combater o vírus. Daí porque os especialistas recomendam sono, boa alimentação, hidratação, exercícios físicos para manter o quadro o sistema imunológico em dia.

O foco de atenção da cobertura jornalística deve ser a informação qualificada; o conteúdo educativo e informativo, o tratamento à notícia com equilíbrio e imparcialidade. Também, é importante informações precisas sobre o nível de risco das pessoas de contágio, classificando-se os riscos em baixos, médios e altos.  Neste aspecto, as novas tecnologias de monitoramento da epidemia via aplicativos e ferramentas de geolocalização podem contribuir – e muito – no mapeamento das áreas de risco se, evidentemente, respeitarem os direitos à privacidade dos cidadãos. Assim, a orientação à população torna-se mais segura.  Neste aspecto, é recomendável que a mídia evite o tom sensacionalista à cobertura jornalística, para evitar a espetacularização da tragédia. Assim, a divulgação de imagens de mortes causadas pela epidemia. A mera divulgação das estatísticas de mortes já por si só uma informação de grande impacto na opinião pública. Neste aspecto, é fundamental a sensibilidade da mídia para com o público telespectador e/ou leitor de sites ou ouvintes.

Os profissionais da saúde são os mais impactados pela crise da epidemia do coronavírus; eles ficam com medo de serem contaminados, bem como o medo de contaminar pacientes e seus familiares. Neste aspecto, é fundamental a valorização pela mídia dos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao coronavírus. Assim, é fundamental a responsabilidade dos meios de comunicação em relação ao público, especialmente em relação ao estado emocional da população, especialmente a saúde mental. O noticiário por si só sobre a pandemia do coronavírus causa estados emocionais de medo, angústia, tristeza, pânico, dentre outros, diante dos riscos de morte associados ao vírus, mais as incertezas da economia nacional com os riscos de desemprego.

Sobre o aspecto o impacto psicológico da pandemia, o autor Steven Taylor, em sua obra The Psychology of Pandemics. Preparing for tne Netx global outbreak of infectious disease. Cambridge Scholars Publishing, 2019, destaca a vulnerabilidade de determinados grupos de pessoas em estados de fobia, pânico, depressão, stress, etc, diante das notícias divulgadas pela mídia.

As notícias despertam aspectos relacionados à doença e ao risco de mortalidade, devido à letalidade do vírus. Assim, o estado da população alarmada fica entre a vida e a morte; uma batalha entre Eros e Tanatos.  Também, entram em cena o Pânico (Pan) e a Fobia (Phobos). Mas, é possível, superar esta dualidade mediante a cobertura de notícias mais ligadas à rotina saudável das pessoas de autoproteção e compaixão. E, também, para despertar a Esperança e a Fé na superação dos desafios relacionados à quarentena.  As pessoas mudaram suas rotinas, boa parte está em casa (aquelas que podem), em regime de home Office.

A overdose de informações é prejudicial à saúde mental, à própria dinâmica da cognição mental. O sistema nervoso das pessoas (aspectos conscientes e inconscientes) é impactado pelas notícias.

Neste aspecto, é vital práticas de atenção plena, como exercícios de respiração, bem como de meditação, para neutralizar os estado negativa da mente. Além disto, como o vírus ataca as vias respiratórias, as técnicas de respiração podem contribuir – e muito – para a qualidade da respiração. A respiração adequada (inspiração e exalação) tem o poder de oxigenar o cérebro e acalmar o coração e, respectivamente, o sistema nervosos. Também, estas práticas evitam o consumo de energia mental com as notícias trágicas. Assim, a responsabilidade da imprensa é para além dos aspectos negativos dos fatos, é fundamental o equilíbrio para o fim de destacar as histórias positivas, com mensagens de esperança de superação da crise. As informações por si só são fatores estressantes da mente que podem desencadear outros sintomas já embutidos nas pessoas. Sobre o tema, o autor Nassim Taleb em sua obra Antifrágil: coisas que se beneficiam com os dados, Rio de Janeiro, Best Business, 2018, pontuam sobre as informações como agentes estressantes em períodos de graves crise e dos respectivos testes de estresse devido à crise de saúde e de desemprego, entre outros.

O autor destaca: “O antifrágil aprecia a aleatoriedade e a incerteza, o que também significa – acima de tudo – apreciar os erros, ou pelo menos certo tipo de erro. A antifragilidade tem uma propriedade singular de nos capacitar a líder como o desconhecido, de fazer as coisas sem compreendê-las – e fazê-las bem”, obra citada, p. 22.

Este é o paradoxo do nosso tempo em momento difícil de fragilidade, qual seja, o de buscar o aspecto antifrágil dentro de nós, para nos capacitarmos diante da crise e para a pós-crise.

Enfim, a mídia, evidentemente, não deve esconder os fatos da população. Mas, também não deve exagerar na dosagem da cobertura jornalística.  A overdose pode ser um veneno.

Ademais, existem muitos outros fatos acontecendo no Brasil, para além da cobertura da epidemia do coronavírus. Assim, é fundamental a mídia oferecer o contexto da big picture, isto é, a perspectiva no futuro próximo das alternativas para saída da crise, bem como ressaltar os pontos positivos das histórias de recuperação. O tom da comunicação (aqui, refiro-me aos aspectos positivos e de encorajamento à superação) a ser adotada pela imprensa (emissoras de TV, rádios e sites jornalísticos) deve respeitar a sensibilidade do estado emocional das pessoas durante esta grave crise no setor da saúde pública, bem como o estado de vulnerabilidade. Assim, saberemos a grandeza da mídia nacional se é fonte de solução de problemas nacionais ou fazem parte destes mesmos problemas.

Deste modo, com a educação e capacitação do público para se auto proteger e cuidar de sua vida e saúde sairemos mais fortes cidadãos com mais autogoverno pessoal.  A cidadania será capaz de dar um grande exemplo à nação, fazendo parte das soluções nacionais no setor da saúde pública, sendo muito maior do que seus governantes.

Crédito de imagem: SG Learning

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